Ei pessoal,
minha amiga Ruth Helena Bellinghini escreveu este texto para ganhar um livro. E ganhou!!!!
O portal Globo.com fez um concurso cujo prêmio era o livro "Um leão chamado Christian", confiram a história do livro no youtube:
E vejam o texto da Ruth (é longo, mas vale à pena) e seus gatos:
Meu animal preferido é aquele que alguém uma vez definiu como um pedacinho de vida selvagem que podemos ter dentro de casa, o Felis catus, o gato. Atualmente, sou o Homo sapiens de estimação de Osíris e Sophia, ambos siameses. Ele, encantadoramente amoroso, costuma ficar de pezinho, os bracinhos estendidos para pedir colo. Ela, que teve uma infância difícil -- passou fome e foi maltratada --, é agora uma espécie de princesinha delicada, que aprendeu que alguns membros de nossa espécie são devotos dessa sua altivez e independência e se entrega aos meus carinhos.

Isso faz de mim parte de uma longa história de convivência, que nem sempre foi de respeito e amor, mas que ao que tudo indica começou no Egito. Foi lá que o povo se deu conta de que havia um animal, um caçador implacável dos roedores que atacavam depósitos repletos de grãos, mas, cujas fêmeas podiam ser mães extremamente amorosas. Os egípcios o transformaram numa deusa, Bastet, puniam com a morte quem matasse o pequeno felino e, quando um deles morria, a família inteira raspava cabeça e sobrancelhas em sinal de luto.
Os gatos começaram sua conquista da Europa, e a tumba de uma menina da antiga Roma, na Via Ápia, é o primeiro registro que se tem desse amor, uma escultura em que a pequena falecida está abraçada ao companheiro.
Os nórdicos associaram esses mamíferos de andar tranquilo e escandalosos quando o tema é amor a uma deusa, Freya, do amor e do sexo. Talvez isso tenha sido sua quase ruína. Na Idade Média foram identificados com a bruxaria e milhares padeceram nas fogueiras, ao lado daqueles acusados de ter parte com o demônio. Há quem diga que os europeus pagaram caro por seu erro: o extermínio em massa dos felinos pode ter contribuído para a proliferação de roedores que espalharam a peste negra pelo continente.
Gente famosa amou e ama seus gatos. Conta-se que o profeta Maomé, apressado para um compromisso, preferiu cortar a manga de sua rica túnica a despertar sua gata Muezza, que adormecera sobre ela. Dizem que quando Buda teve sua Iluminação, todos os animais se curvaram diante dele, menos, é claro, o gato, que não se curva diante de ninguém. Reza a história que quando o cardeal Thomas Wolsey, chanceler da Inglaterra no reinado de Henrique VIII caiu em desgraça, seu gato ficou a seu lado durante o julgamento. Outro cardeal, Richelieu, ministro de Luis XIII, não ia dormir sem antes brincar com seus vários gatos, que tinham uma sala só para eles e dois serviçais para atendê-los. Winston Churchill e Vladimir Lenin eram fãs de gatos. O viralatíssimo Sox fez história na Casa Branca durante o governo Bill Clinton, e foi fotografado no púlpito atrás da inscrição: "The President of the United States". Vitor Hugo, Ernest Hemingway, Emile Zola foram abençoados com a convivência com esse pequeno felino, que virou personagem importante em O Gato de Botas, na Alice em seu país de maravilhas. São estrelas de desenhos animados e quadrinhos. A americana Rita Mae Brown transformou sua Sneaky Pie Brown em coautora de seus livros de suspense, povoados por gatos que conversam, discutem as imperfeições e fraquezas de seus humanos e solucionam crimes. "Se você quer ser autor de romances psicológicos e escrever sobre seres humanos, o melhor que você pode fazer é ter um par de gatos", dizia o escritor Aldous Huxley. O grande Leonardo da Vinci o colocou nos braços do Menino Jesus em seu estudo Madonna com o Menino e o Gato. É dele uma das minhas citações preferidas: "O menor dos felinos é uma obra-prima".

Sobre os gatos, pesa todo tipo de calúnia. Que são interesseiros, que se ligam ao lugar e não às pessoas, que não se importam. Não é verdade. Especialistas dizem que eles não precisam miar para comunicar-se entre si, porque tem a linguagem corporal, e que o miado se desenvolveu em parte para conversar conosco. Experimente dizer "miau" para um gato britânico que ele imediatamente olhará para você com uma inequívoca expressão de "I beg your pardon?" Faça o mesmo com um gato de miado latino, um italiano ou francês: ele logo percebe que aquele não é o idioma dele, mas que é bem parecido.
Tive uma sucessão de siamesas -- Osíris é meu primeiro menino -- adoráveis, companheiras. Maíra, que adorava política, ficava a meu lado até altas horas quando eu estudava e, se eu chorava, lambia minhas lágrimas. Lembro de ficar doente e dela ao meu lado, velando por mim, só saindo de perto para comer e ir ao banheiro, como uma devotada enfermeira. A pequena Sarah, que viveu tão pouco, vítima da Síndrome da Imunodeficiência Felina Adquirida, a Faids, que nos aproxima tanto, gatos e humanos, também na dor. Nikita, tão brincalhona e arteira que deixava as filhas, Mousy e Elizabeth, com aquela carinha de adolescente que fica envergonhada com as atitudes da mãe. Mousy, meu periférico peludinho, que ficava de plantão no computador, avisava quando entrava email. E Elizabeth, tão linda e tão corajosa ao enfrentar o câncer de mama, as cirurgias e as sessões de quimioterapia sem reclamar, esticando a patinha para que a Lilia Wang, veterinária, injetasse o medicamento. Tínhamos um acordo, de que quando as coisas se tornassem insuportáveis Beth me dissesse. E assim foi. Um dia no consultório o câncer que se alastrara para o pulmãozinho dificultou de tal sua respiração que não houve como não entender aquele olhar de "não posso mais". Lilia colocou Beth "para dormir" nos meus braços, enquanto eu prometia que ela acordaria num lugar lindo, cheio de almofadas macias, ao lado da mãe. Mousy recebeu a mesma herança genética, uma propensão para o câncer, mas não houve como iludir a pequena atéia com histórias de uma vida além da morte. Lembro de seu esforço na UTI para se levantar da caminha ao me ver, de seu último afago e de explicar que eu a amava demais para ver tanto sofrimento.

Sophia, uma inesperada fã de ópera, dorme agora na minha cama quentinha para a qual leva seus brinquedos. Se me demoro a deitar, ela vem reclamar minha presença, delicada, mas insistentemente. Osíris, aqui a meu lado, reivindica seu colo, bracinhos estendidos para que eu o pegue e ele se acomode qual bebê, mãozinhas em torno do meu pescoço, a cabeça recostada no meu ombro, as pernas gordinhas largadas. É meu leãozinho. É como diz o ditado indiano: "O gato é um leão numa floresta de pequenos arbustos."
Acho que vocês não esperavam uma resposta tão longa. Mas eu também, não esperava deles tanto amor.